Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

1Likes
0Comentários
2665Views
AA

2. Pesadelos

 

São Paulo, 1974. O sono de Nico era agitado.

 

Liza estava à beira do riacho e sangrava. Pedia ajuda a Nico, gritava desesperada, enquanto as águas ficavam cada vez mais avermelhadas. Nico tentava chegar perto, mas cada vez que se aproximava ela ia mais para o fundo. Quando parecia que ia consegui tocá-la, ela dissolvia-se.

Estava no meio do riacho, afogando-se e pedia socorro a Nico, que tentava chegar até ela, mas as águas não o deixavam chegar perto. Tentava até que ela afundava.

Na margem do riacho Liza estava sufocando e estendia a mão para Nico, mas ele não alcançava, e ela dissolvia-se.

Liza estava chorando nos braços da avó, na varanda da casa. Nico dava-lhe as costas e corria desesperado. Corria em direção a um nevoeiro, e o mundo aos poucos ia sumindo...

 

Acordou sobressaltado, suando muito e com a respiração descontrolada. Nos últimos anos cada vez mais freqüentemente vinha tendo pesadelos, e sempre Liza aparecia sofrendo. Todos os pesadelos acabavam com ele correndo, até sumir no nevoeiro. Sacudiu a cabeça tentando espantar as últimas lembranças do sonho e olhou o despertador.

- Droga. Perdi a hora.

Levantou-se rapidamente e correu para o chuveiro. De súbito teve uma lembrança: Liza e ele, ainda pequeninos, no chuveiro tomando banho. “Pulgas!” – pensou. - “Sim, as pulgas. Preciso contar para Liane”.  Sorriu.

 

Desceu até a cozinha para tomar café. Estava atrasado para a faculdade, tinha de se apressar.

- Oi, Mãe. Pai já foi trabalhar?

- Já. Você hoje acordou tarde. Vai se atrasar, melhor se apressar. Que houve? Está se sentindo bem? Ouvimos gemidos...

- Não foi nada, mãe. Só um pesadelo. E quando eu tenho pesadelos não consigo ouvir o despertador. Vai ver comi demais ontem.

- Não é melhor procurar um médico? Talvez você esteja sobrecarregado com a faculdade...

- Não, Mãe, não precisa. São só pesadelos, basta acordar.

 

Teve sorte e chegou em cima da hora para suas primeiras aulas. No intervalo encontrou Liane na lanchonete da Universidade. Nos últimos três anos Liane tinha sido sua melhor amiga, e o compreendia como ninguém. Ela cursava o segundo ano de Direito, assim como Nico, mas em turma diferente.  Liane achava-o interessante; por algum tempo chegou a pensar que estava apaixonada por ele, descobrindo depois que era apenas intensa amizade e curiosidade pelas coisas que ele lhe contava. Estavam sempre juntos e  Nico dizia que ela era sua quase namorada.

- “Quase” porque falta um tiquinho para isso, por enquanto somos apenas amigos, ou como diria Liza, amigos inseparáveis, e “namorada” porque todo mundo pensa que somos. Deixa o povo pensar, afinal gosto muito de você, e se eu puder me apaixonar um dia, você vai ser a primeira candidata.

Liane aos poucos foi compreendendo Nico e a naturalidade com que ele colocava Liza em todos os assuntos. Ele tinha uma facilidade incrível de abrir seu coração e contar as coisas do passado, e ela sempre se preparava para ouvir alguma nova revelação, quando ele vinha com um brilho nos olhos e a cumprimentava com a frase “quero te contar uma coisa”.

Nico beijou-lhe o rosto: - Quero te contar uma coisa.

Liane riu - Deixa eu pedir um refrigerante primeiro. Quer alguma coisa?

- Pede um suco de laranja para mim. Tudo bem com você? Tem tempo para me ouvir agora? Quer encontrar-se comigo depois?

- Temos tempo. Vamos, fala. Agora só te ouço.

- É que eu tive pesadelos...

- Já está virando moda...

- Tudo bem, mas não é importante. É que levantei suado e fui tomar um banho...

- E lembrou-se que precisava de alguém para esfregar as costas, pensou em mim...

- Não, escuta. Lembrei de uma coisa.

- Já sei. Liza...

Nico corou. Por um tempo ficou calado, esperando o garçom servir as bebidas. A lanchonete, ponto de encontro dos alunos de todas as faculdades do Mackenzie, estava lotada como sempre.

- Bem... é... desculpe. Acho que estou sendo ridículo.

- Que nada, Nico. Você sabe que gosto de ouvir suas lembranças. São muito interessantes e às vezes... ou melhor, na maioria das vezes, picantes.

- Não fale assim. Eu fico me sentindo um safado. E não ria da minha cara... está bem, confesso que às vezes são mesmo picantes, como você diz, mas não é só isso... Mas deixa eu falar... foram as pulgas. Lembrei das pulgas...

- Quê!? Pulgas?

- É, pulgas... mas deixa eu falar, você vai entender.

 

“Foi num daqueles poucos dias em que fui brincar com Liza antes do meu tempo de escola. Tinha uns seis anos, e minha mãe me incentivava a ir brincar na casa do Seu Chico, e de vez em quando eu ia. Era nosso único vizinho, e Liza era a única criança nas proximidades. Um pouco mais nova do que eu, mas muito espertinha. Eu e ela estávamos explorando a fazenda e entramos em um cômodo vazio, abandonado. Sentimos cócegas nas pernas, e vimos milhares de pulgas subindo. Saímos dali correndo e gritando por Dona Nena.

- Que houve, crianças? – Dona Nena estava no quintal, estendendo roupas.

- Pulgas, vó. Um monte delas. Estamos cheios delas, e está dando coceira.

Dona Nena pegou água do tanque com um balde e ficou derramando na gente até encharcar completamente nossas roupas. Foi bom, porque a coceira parou.

- Agora tirem as roupas e deixem aqui, e vão para o banheiro tomar um bom banho. Esfreguem bastante sabão no corpo para matar todas as pulgas. Vou lavar as roupas enquanto isso. Não precisa ter vergonha um do outro.

Fomos correndo para o banheiro. O chuveiro era frio, mas para aquele lugar, normalmente acalorado, isto era muito refrescante. Depois do banho, Dona Nena nos secou e entregou uma pomada para passarmos nas picadas. A pele branca do corpo de Liza estava cheia de pontinhos vermelhos.

- E agora, Dona Nena, como vou embora? Minhas roupas estão molhadas.

- Não se preocupe, Nico. Daqui a pouco estarão secas. O sol hoje está bom, não demora muito.

Demoramos bastante passando pomada nas mordidas, uma a uma.  Liza estava de costas, e eu continuava a passar pomada nas picadas. Ela ficou muito quieta, achei que estava ficando triste, e então peguei um travesseiro e fiquei dando travesseiradas nela. Ela riu um bocado, e perguntou por que eu estava fazendo aquilo.

- Estou matando pulgas.

Ela pegou outro travesseiro e ficamos trocando travesseiradas por um bom tempo. Essa foi a primeira vez que brincamos juntos assim, sem roupas, e não sentimos nenhuma vergonha. Depois disso, só muito tempo depois, encontramos o riacho e nos lembramos desse dia.

Depois que cansamos da brincadeira, dormimos juntos na cama. Dona Nena veio nos acordar com as roupas secas, nos encontrando deitados encolhidos e juntinhos. Ainda me lembro da pele branquinha dela, cheia de pontinhos vermelhos. ”

 

- E foi isso. Lembrei, e queria contar para você. Bobeira, não? – Nico parou de falar, seu olhar perdido no passado, uma lágrima desceu.

Liane enternecia-se com esses momentos de Nico, um rapaz meio complicado, que tinha uma facilidade incrível de fazer amizades,  mas que parecia ao mesmo tempo distante de todos. Apertou-lhe a mão, e esperou até que ele voltasse ao presente.

- Faz sentido, Nico. Tem tudo a ver com a tal promessa de vocês.

Liane encontrara a “tal promessa” escrita em vários cadernos de Nico – “não sentir vergonha de nossos corpos, mesmo que excitados, e não fazer bobagens”. Nico explicou-lhe que era uma promessa entre ele e Liza, e aos poucos foi contando coisas do seu tempo de criança.

- Essa é uma lembrança feliz. Tenho muitas lembranças felizes com Liza. Porque não sonho com essas coisas? Porque tenho pesadelos com Liza? Ela está sempre sofrendo, e isso acaba comigo. Mãe até sugeriu procurar um médico.

- Acho que você deveria falar mais de suas lembranças boas. Quem sabe assim elas te deixem mais relaxado, e assim diminuem os pesadelos.

- Bem que eu tento. Esses pesadelos... queria acabar com eles...

- Ei, não perca a próxima aula. À noite a gente se vê. Me leva ao cinema? Quero ver o documentário sobre o incêndio daquele prédio... como é mesmo o nome?

- O edifício Joelma? Você gosta de tragédias. Faz mais de seis meses que o prédio pegou fogo e o povo ainda está vendo as filmagens... deve ser chato pra caramba. Mas te levo assim mesmo.

- Tenho um interesse especial nisso. Eu estava na praça e assisti ao vivo. Foi terrível. Quero ver o que vão falar. E pra você ser chato mesmo. Não tem nenhum incêndio em cafezal. - Beijou Nico no rosto e foi para sua aula.

 

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...