Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

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8. Mudanças

 

8 – Mudanças

 

No dia seguinte o grêmio estudantil estava agitando a turma de Nico para uma visita. O objetivo era atrapalhar as aulas para forçar o professor de Direito Tributário a postergar um trabalho escrito. Qualquer lugar servia, desde que não houvesse aula no dia seguinte. As sugestões mais disparatadas surgiram: zoológico, para estudarem a relação entre os danos causados pela importação de animais exóticos e a safra de trigo, a um prostíbulo para conhecerem a quantidade de tributos gerada pelo trabalho das moças, ao cinema, para analisarem os benefícios do lazer no aproveitamento estudantil, e assim por diante.

Nico e Liane observavam a turma. No final, decidiram não ir a lugar nenhum, e o professor decidiu deixar o trabalho para a semana seguinte. Reclamou muito, discursou, e no fim pôs a culpa na política de abertura política do Presidente Geisel, reclamou da complacência do Governador Natel, e no fim, todos ficaram contentes.

- Eu quase sugeri visitar um cafezal, para tentarmos entender as questões de Direito Comercial entre os pequenos produtores.

- Cafezal? Tirou essa idéia do trabalho de seu pai ou do meu?

- Não, é que houve uma visita ao cafezal do Seu Chico.

- É?

- Foi uma bagunça só.

 

“A escola estava ficando cada vez mais exigente. Muita lição de casa, muitos trabalhos escolares, pesquisas, algumas visitas. Numa dessas visitas a diretora acertou com seu Chico de levar todo o ginásio para conhecer o cafezal, guiados pelos professores. Foi marcada uma sexta feira. Nesse dia a escola ia sofrer uma dedetização, nome que foi dado ao envenenamento das baratas, que apareciam aos montes.

A prefeitura arrumou um ônibus velho e um meu pai emprestou o caminhão. Metade da turma em cada veículo. Foi uma farra só quando saímos sacolejando pela estrada de terra que percorríamos diariamente na charrete. No cafezal, só brincadeiras. Ninguém prestava atenção aos professores, só queriam saber de esconder, de pega-pega, de correr entre as ruas do cafezal. Alguns mais atrevidos agarravam as meninas nas moitas, para roubar beijos. Os professores ficaram desesperados.

- Não corram, meninos!

- Cuidado com as cobras!

- Ai meu Deus! Parem com essa agarração! Que coisa feia!

- Cadê fulano e fulana? No mínimo se pegando nas moitas!

- Maldita hora que inventaram esse passeio. Eu preferia estar cheirando veneno na escola! Isso só podia dar em confusão.

No final da tarde foi preciso muita buzinada para reunir a turma toda. No fim deu tudo certo, todos voltaram ilesos. Ou quase. Alguns arranhões, algumas roupas rasgadas, algumas meninas mais coradas que o normal. Eu e Liza tivemos que voltar à escola somente para pegar a charrete do velho Tião e retornar.

Esse passeio quebrou algumas barreiras entre as crianças da roça e as da cidade. Alguns gostaram da fazenda e pediram aos pais para fazer nova visita. Por algumas vezes fomos anfitriões dos nossos colegas. Também havia mais conversas, principalmente crianças querendo saber detalhes da roça, outras interessadas nos animais. Quando pessoas da cidade iam à fazenda, nos divertíamos bastante ensinando-os a montar. Adquirimos novas amizades com os jovens da cidade.”

 

- Confesso que apesar das novas amizades, o bom mesmo era estarmos sozinhos em nossos passeios, eu e Liza, especialmente pelo cafezal, que era nosso lugar preferido, principalmente na época das flores, quando um tapete branco tomava conta das trilhas. Tudo ficava coberto de flores: a estradinha, as ruas do cafezal, embaixo do ingazeiro, até as margens do riacho, quando o vento jogava flores lá. Abelhas zuniam, pássaros viviam à caça dos insetos. Era realmente um lugar muito bonito.

- Cada uma...

- De vez em quando tem de haver alguma mudança. Mesmo as mudanças desastrosas servem para alguma coisa.

Estavam saindo pela Portaria Maria Antonia, quando encontraram-se com Frank e Patrícia, de mãos dadas.

- Oi, Nico... Oi, Liza, sabe que Nico é o máximo em TGE? Consegui me dar bem... nas duas  matérias.

- Duas !?

- É... consegui  me safar da Teoria Geral do Estado, e de quebra, aprendi um pouco da Teoria Geral da Emoção do Professor Nico.

- Tá de brincadeira, Frank! – Liza ainda não tinha entendido onde ele queria chegar.

- Deixa que eu explico. – Interveio Patrícia. – eu estava quase saturando desse tonto, quando ele resolveu mudar de atitude. Sabe? Mais carinhoso, menos grudento... nossa! Outro Frank! Então desisti de desistir dele. Aí ele me disse que era a TGE do Nico. Quem sabe, Nico, um dia você me ensina na prática...

- Não abusa, Patrícia, senão eu volto a agarrar você...

- Criança! Frank continua criaça... – comentou Liza, quando eles se afastaram.

 

 

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