Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

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3. Incêndio

 

3 - Incêndio

 

O documentário sobre incêndio do edifício Joelma era quase um improviso. Filmagens diversas pareciam ter sido juntadas às pressas para mostrar um quadro completo da situação. Entrevistas com sobreviventes, com o Prefeito Colasuonno, bombeiros e curiosos, quebravam aqui e ali a monotonia do prédio em chamas, e de pessoas se jogando das janelas. Nico achou o documentário realmente chato, mas Liane parecia bastante interessada, por isso assistiu atento até o final. Uma cena que chamou a atenção foi a de um homem, numa das janelas do décimo oitavo andar, que ficou horas fumando e esperando socorro, enquanto o prédio ardia, e ainda subiu ao décimo nono andar para acalmar uma mulher que tentava se jogar.

- E aí? O que achou?

- Arrepiante. Não sei como as pessoas assistem essas coisas. Dois anos atrás foi o edifício Andraus que pegou fogo. Vendia revistas até o Joelma pegar fogo. Agora o Joelma é a coqueluche do momento.  Dizem até que nos Estados Unidos estão fazendo um filme onde um edifício maior que o Empire States está pegando fogo, inspirado no Joelma. Certamente vai fazer sucesso, o povo gosta de tragédias.

- Precisamos conhecer as tragédias para não repeti-las. Acho que todo engenheiro deveria ver esse tipo de filme, quem sabe não tomariam mais cuidados com seus projetos.

- Ainda bem que estudo Direito e não Engenharia.

- Mas o Direito tem muito a ver com isso. Pense nas pessoas, nas indenizações, nas responsabilidades, aplicação da justiça...

- Verdade, mas é deprimente. E eu me senti uma daquelas pessoas. Com certeza agora vou ter pesadelos com incêndios.

 

Nico deixou Liane em casa. Ela morava sozinha em um sobradinho no Anhangabaú, comprado por seus pais e especialmente localizado para que ela pudesse estar perto da Faculdade e ao mesmo tempo perto da casa de Nico. “No meio da Selva de Pedra”, dizia Liane, lembrando uma novela televisada no ano anterior. Os pais de Liane eram fazendeiros de café, e mantinham uma boa relação com os pais dele. Liane era uma pessoa independente, e não quisera morar em uma república de estudantes para moças.

- Nico, lembre-se das coisas boas, estas aconteceram de verdade. Esqueça os pesadelos, não são reais. – disse Liane antes de se despedirem.

Liane sabia bem que pequenas coisas eram lembranças preciosas para Nico, e muitas vezes ele não conseguia conter as lágrimas ao contá-las, parecendo, nesses momentos, mais um menino desprotegido. Lembrou-se de uma das primeiras vezes que Nico a levou para casa. Tinham feito uma parada na praça e suas mãos se entrelaçaram. Depois de um bom tempo pensativo, ele apoiou a cabeça em seu ombro e falou:

 

“A primeira vez que senti alguma coisa por Liza de verdade foi no primeiro dia de aula dela. Eu já estava estudando fazia uma semana, e finalmente seu Chico, nosso vizinho, tinha conseguido um jeito de mandar Liza para escola. Era muito longe para ela ir a pé, uma menininha pequena e tão novinha. Bem, eu também era pequeno e apenas um ano mais velho, mas era homem. Seu Chico acertara com o velho Tião para fazer o transporte, e meu pai gostou da idéia, e também combinou com o velho Tião para me levar. Nesse dia esperei Liza na porteira e fomos pela estrada ao encontro do velho Tião. Liza apertava a cartilha “Caminho Suave” contra o peito, e parecia apreensiva.

No intervalo das aulas encontrei Liza chorando num canto da escola. Liza tinha perdido uma semana de aula, e ao que parece, não tinha de adaptado bem a esse primeiro dia. Estava ali, escondendo o rosto com os braços, como se tivesse vergonha do próprio choro. Eu não sabia muito bem o que fazer, afinal era apenas um ano mais velho que ela, tinha somente a experiência de já ter passado um ano na escola.

- Que foi, Liza? Porque você está chorando?

- Ah, Nico. Estou com medo. Aqui é tão diferente do sítio, e a professora parece tão brava...

- Logo você se acostuma. É só prestar atenção na aula. Vem. Vamos pegar a merenda. Eu vou com você. Enxugue os olhos.

Ela hesitou, mas levantou-se em seguida, e desajeitadamente passou o braço no rosto para secar as lágrimas. Retirei umas lágrimas com o polegar, e conduzindo-a pela mão, levei-a até o pátio da merenda, onde pegamos um pão com manteiga e uma caneca de café com leite cada um e fomos a um canto sossegado. Ficamos ali até o final do recreio. Antes de voltar para minha classe, a deixei na porta da sala de aula dela.

- Não fique com medo. Venho aqui pegar você no final da aula.

Depois da aula fui buscá-la, e vi que estava mais animada. Peguei sua mão e fomos até a charrete. O toque de sua mão era macio e gostoso. Assim foi o primeiro dia de Liza na escola, e a rotina do recreio repetiu-se por bastante tempo, até que ela adaptou-se e começou a participar das brincadeiras com os colegas. Quando não tínhamos nada para nos distrair, simplesmente ficávamos sentados num canto do pátio, conversando sobre as lições. Ao final das aulas ela me esperava na porta da sala, e então me dava a mão e íamos até a charrete do velho Tião. Uma pequena viagem até a beira do cafezal, e seguíamos a pé até a casa de seu Chico, onde eu a deixava, e seguia adiante.

Seus medos dos primeiros dias de escola desapareceram, no entanto, estávamos já tão acostumados a tomar lanche juntos que não abandonamos o hábito, tornou-se uma coisa natural. E também andar de mãos dadas se tornou costumeiro para nós. Eu adorava sentir aquela mãozinha entre as minhas.

Ficamos tão ligados que passamos as férias do meio do ano brincando e conversando quase todo o tempo. Não havia outras crianças nas proximidades, somente mais distante, nos roçados. Às vezes os peões contratados para limpeza do cafezal e dos roçados de seu Chico traziam os filhos, mas eram raros esses momentos, e muitas vezes elas vinham para ajudar os pais, não tinham tempo para brincadeiras. Nem meus pais nem os avós de Liza gostavam que ajudássemos nas tarefas rotineiras, diziam que não éramos feitos para essas coisas, precisávamos estudar e aprender, nos preparar para o futuro. Assim, todo nosso tempo fora da escola era livre.

Quando não tínhamos mais nada para nos distrair, simplesmente ficávamos à sombra das árvores, jogado conversa fora. Às vezes Liza apoiava a cabeça no meu colo, às vezes era eu que fazia isso, muitas vezes éramos surpreendidos pelo sono, e cochilávamos sossegados, deixando o tempo passar pachorrentamente. E sempre de mãos dadas.”

 

Esse tipo de recordação fazia Nico marejar os olhos. Tudo que se referia a Liza tinha um toque de ternura e de saudades, e ele era muito sensível a isso.

 

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