Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

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9. Entendendo pesadelos

 

9 – Entendendo pesadelos

 

Liza estava à beira do riacho e sangrava. Pedia ajuda, gritava desesperada, enquanto as águas ficavam cada vez mais vermelhas... Estava no meio do riacho, afogando-se, e pedia socorro... Na margem do riacho Liza estava sufocando e estendia a mão... Liza estava chorando nos braços da avó, na varanda da casa... Nico dava-lhe as costas e corria desesperado. Corria em direção a um nevoeiro, e o mundo aos poucos ia sumindo...

 

Os pesadelos de Nico voltaram a incomodar. Vinham com mais intensidade, repetiam-se com mais freqüência.

- Nico, você está bem? – perguntou sua mãe certa manhã – Ontem você estava gemendo...

- Não é nada, mãe, só pesadelos. Pesadelos com minhas coisas de criança...

A mãe de Nico não disse nada a ele, entretanto contou ao pai.

 

- Acho que vou ficar doido. – comentou certo dia com Liane. Estavam na casa dela depois das aulas. – Agora é quase todo dia.

- Não é melhor procurar ajuda?

- Um médico da cabeça? Sei lá. Ultimamente estou incomodando até meus pais. Andam dizendo que gemo durante o sono.

- Contou a eles?

- Só disse que são pesadelos com as coisas de criança. Eu estava pensando... sempre Liza...

- E o que tem isso? Foi alguém importante no teu passado, não foi? Natural que o subconsciente se lembre dela.

- Puxa, você deveria estudar psicologia!

- Não brinca. Estou falando sério.

- Sem brincadeiras, eu também estava pensando nisso.

- É, veja: Liza sangrando lembra a primeira vez das coisas de mulher. Quando sonhou com o incêndio no Cafezal, pode ter sido por causa do filme que assistimos, assim, o afogamento, o sufocamento, o choro no colo, tudo deve ter um fundo real, algum fato, não tem?

- É... o choro no colo eu me lembro muito bem. Foi nossa despedida. Depois saí correndo, me esqueci do resto, só fui perceber o mundo novamente já muito longe, no carro. Tinha um rádio de pilha tocando uma música que eu gostava muito, principalmente da primeira parte. Nessa hora, no entanto, a segunda parte é que fazia mais sentido.

- Que música?

- Era uma música de Cascatinha e Inhana, chamava-se Flor do Cafezal. Liza era minha branca flor do cafezal.

- Que romântico.

- Aquele foi o pior dia da minha vida. – Encostou-se em Liane e ficou calado por um bocado de tempo, antes de começar a chorar.

- Viu? – disse Liane quando ele se aclamou. – faz sentido...

De repente Nico levantou-se.

- Sou um idiota. Sou mesmo. Idiota, idiota, idiota. Eu sei porque... e acho que só tenho pesadelos porque sinto... falta dela... Sou um idiota covarde.

- Ei, porque isso? Que foi?

- Afogamento, sufocamento. Nos pesadelos são terríveis, mas de fato foram nossos momentos mais intensos... e perigosos.

 

“Quando aquele ano da visita do cafezal chegou ao fim, recebemos algumas visitas da cidade durante as primeiras semanas, fomos às roças algumas vezes, e tudo corria preguiçosamente em deliciosa rotina. O cavalo era nossa condução predileta, até fizemos um passeio até a cidade à cavalo. Foi uma novidade para nossos colegas de escola, que se divertiram tentando montar.

O tempo ia passando e o calor aumentando, e isso nos atraía para o riacho, porém nenhum de nós falava isso. Havia um certo receio no ar. Resistimos ao máximo, porém chegou um dia que não agüentamos mais, e passeando pelo cafezal fomos parar lá no riacho. O lugar estava silencioso, a água tépida corria tranqüila e transparente.

- Liza, não vamos esquecer a promessa...

- Tá. Sem vergonha, sem bobeiras. A gente consegue.

Despimo-nos. Na verdade foi mais fácil do que pensávamos. Em um minuto estávamos dentro da água, ora mergulhando naquele quase um metro de fundura, ora na cachoeira, ora escorregando pelas corredeiras, ou simplesmente deitados nas partes mais rasas.

Nossos corpos se tocavam esporadicamente. Pequenos arrepios de vez em quando, mas nada tão intenso. Liza estava linda no seu corpo quase mulher. No entanto sorria como a menininha do nosso primeiro banho. Por um tempo esquecemos que nossa brincadeira poderia ser considerada uma tremenda sem-vergonhice. Todos pensariam, e com razão, que havíamos perdido o senso. Nada disso vinha à nossa cabeça naquele momento, apenas nos divertíamos. Era a água e nós. Não sei por quanto tempo brincamos, só paramos quando Liza me abraçou e enroscou suas pernas em minha coxa. Seu corpo apertava o meu, e senti o sangue ferver, o coração palpitar.

- Nico, me abraça forte.

- Para com isso, Liza, senão vou ter um troço.

- Não dá mais, eu estou tendo um troço – apertou-se mais a mim. Sua respiração estava ofegante, seu coração descompassado. Senti cada pedaço do seu corpo encostado ao meu queimar, e em vez de soltá-la, abracei-a ainda mais forte. Foram momentos estranhos. Por algum tempo fiquei sem reação, mas então meu corpo explodiu em sensações, achei que ia sufocar. Liza, grudada em mim parecia sentir a mesma coisa, e então permanecemos ali, tentando nos controlar. Não sei por quanto tempo ficamos abraçados até relaxar. Continuamos abraçados e beijamo-nos automaticamente. Um beijo longo, delicioso. Depois mergulhamos na água.

- Desculpe, Liza. Acho que fizemos uma grande besteira.

-  Isso foi... como se eu não soubesse...

- Me perdoa... por favor... perdoa. Acho que isso foi mesmo... um orgasmo... deixamos acontecer. A culpa foi minha, não me controlei.

- A culpa foi minha. Eu não tinha nada que te abraçar. E depois não quis me afastar.

- E agora? Será que quebramos nossa promessa?

- Não sei, mas acho que exageramos um pouco.

- Não era pra acontecer. Estou com vergonha disso. E com raiva de mim. Me desculpe.

- Para de pedir desculpas. Aconteceu e pronto. Não tem mais jeito. Acho que não quebramos a promessa. Não foi isso que pensamos quando prometemos não fazer besteira, mas chegou bem perto.

- É, chegou bem perto. Estou me sentido culpado...

- Eu também estou, Nico. Acho que estamos crescendo muito rápido, sentindo coisas de adulto. Ainda bem que não quebramos a promessa... bem, quase quebramos... Agora não tem mais jeito.

- Estamos que nem os namoradinhos da escola, que vivem se agarrando. Somos dois sem-vergonhas.

- Ei, não somos não! Nunca ficamos de agarração. Tá certo, tomar banho no riacho desse jeito é... não é bem certo, mas, combinamos nos respeitar, não foi?

- E agora? O que viramos?

- Acho que agora somos namorados de verdade. É nosso segredo, tá certo? E vamos cuidar de nossa promessa.

- Está certo. Então somos namorados. Namorados de verdade.

Depois do riacho fomos até o ingazeiro.

- Nico, quero falar uma coisa: se acontecer aquilo, você sabe, se a gente quebrar nossa promessa... a gente vai ser o que? Depois de namorado o que vem?

- Não sei. Acho que é amante, mas amante é uma coisa feia. Que tal casados, marido e mulher?

- Casados sem casar?

- Casados sem casar. Parece esquisito, não é? Uma vez Pai falou que o casamento são três partes: um acordo que é assinado no cartório, que serve para garantir o dinheiro, casas, os filhos; outra parte que é na Igreja, que é uma promessa para Deus abençoar, e a outra parte, que é a mais importante, é uma promessa entre os dois... essa é a que mais vale.

- Se você pedir a Deus para abençoar, será que ele abençoa? Sem ir à Igreja?

- Acho que sim. Deus é bom.

- Então vamos combinar uma coisa, mais uma coisa. Se acontecer aquilo, você sabe, a coisa de sexo, quebrar a promessa, então a gente promete um ao outro ficar sempre juntos, e pede que Deus abençoe nossa promessa. Um dia, quando der, a gente faz o contrato do cartório. Pode ser assim?

- Então vamos ser marido e mulher sem ninguém saber? Então estamos combinados. Mas podemos esperar bastante tempo. Não vamos quebrar a promessa por qualquer coisa. Não há pressa. Estaremos sempre juntos. É bom estar com você desse jeito.

- A cigana disse que vamos estar sempre juntos, então não temos pressa mesmo. É só uma garantia.

Um abraço selou o acordo.

- Liza, quero dizer uma coisa: aquilo... foi muito bom...

- Seu sem-vergonha! Isso é coisa que se fale?

- Desculpe...

- Eu também achei bom. Parece sem-vergonhice... é sem-vergonhice, mas ainda assim, foi bom... ainda bem que ficou naquilo. E ainda bem que foi com você. Outra primeira vez... Vou sonhar com isso.

Acariciei Liza nos cabelos e a puxei para mim.

- É... primeira vez... veja só, Liza: quando você tinha uns dez anos, nós descobrimos o riacho, perdemos a vergonha de nós. Depois você foi crescendo, ficando mais bonita. No riacho eu vi você virar moça, ter aquelas coisas... a menstruação, sua primeira. Agora tivemos o primeiro orgasmo. Nunca vou esquecer essas coisas. Não quero ficar longe de você nunca. Tenho sorte de estar sempre com você nesses momentos. Acho que é por isso que eu te amo.

- É mesmo, juntos nos momentos especiais. Eu também não quero esquecer essas coisas. Me sinto protegida com você, e te amo de verdade, não é como aqueles namoros de escola, que é tudo mentira. É de verdade. Sinto no corpo, sinto arrepios até de lembrar de você.

- São os comichões. Eu também sinto, por isso gosto de estar com você. Me abraça...

A tarde ia caindo, era hora de voltar para casa. Estávamos mais adultos agora, mais felizes. No entanto a culpa ainda persistia, era preciso tomar cuidado. Eu não queria deixar Liza triste, e qualquer besteira poderia fazer isso. Eu tinha de cuidar de nós.

Voltamos ao riacho mais algumas vezes naquelas férias, procurando ao máximo evitar o acontecido naquele dia. Mesmo assim sentimos fortes comichões, mas nos controlamos. Parece que isso deixava-nos mais acesos, pois ficava muito mais gostoso caminhar pelo cafezal depois do riacho. As paisagens ficavam mais bonitas, as flores mais perfumadas e os beijos mais doces.

Aproveitamos bastante aqueles tempos, cientes que não precisávamos nos apressar, já nos pertencíamos por inteiro, era só esperar o tempo certo. O destino ia se encarregar de nos mostrar, ia fazer acontecer no momento certo.

Depois começou meu último ano do ginásio. Liza estava com 13 anos e eu com 14. Foi o melhor dos anos. Cada momento com Liza era sublime, conversávamos abertamente qualquer assunto, ríamos das nossas bobagens e estávamos sempre juntos. Aprendemos a ser bastante discretos em nosso namoro, agíamos como se fôssemos simples colegas de escola, a não ser por nossas mãos, que insistiam em se procurarem, independentes da vontade. Tínhamos crescido, parecíamos quase adultos. Liza ajudava regularmente Dona Nena nos afazeres, eu ajudava meu pai um pouco, pois ele não me deixava fazer muita coisa, dizia que eu precisava estudar. Eu ajudava também seu Chico no cuidado com seus animais. Ele fazia isso mais por prazer do que por necessidade.

Terminado o ano, teve uma festa de formatura para minha classe. Liza foi meu par. Dançamos pela primeira vez, foi uma sensação incrível. Tudo prometia correr bem.

 

Num domingo o mundo acabou. Pai e mãe foram logo cedo à cidade, acompanhados de Seu Chico e Dona Nena. Iriam ficar por lá até a tarde, tratando de negócios. Acertos do cafezal, acho eu. Fui para a casa de Liza, onde tomei café com um bolo preparado por ela.

- Vô e Vó estão misteriosos ultimamente. Que será que está havendo?

- Não sei. Pai e Mãe também. Parecem preocupados. Não parece ser coisa de dinheiro. Outro dia ouvi pai dizendo que finalmente o negócio de São Paulo tinha dado certo. Eles andavam fazendo planos. Não sei o quê, não falaram comigo sobre isso.

O dia foi passando, entre conversas e passeios. Almoçamos uma comidinha simples que Liza preparou, e depois resolvemos passear sem rumo. O dia estava agradavelmente quente, e sem percebermos, estávamos no riacho. A água morna nos convidava a aproveitá-la. Sem muito pensar tiramos a roupa e entramos. Pela primeira vez consegui não me mostrar excitado... bem, foi por pouco tempo, porque alguns minutos depois percebi o quanto ela estava bonita. Procuramos evitar ao máximo os arrepios e comichões, e nos concentrar na água, no entanto não evitamos nos tocar. Brincamos na cachoeira, na cacimba, nas corredeiras, mãos dadas ou às vezes abraçados, sentíamos um imenso prazer em cada gota de água.

Quando nos cansamos, deitamos numa laje parcialmente imersa na água. Abraçados, nos beijamos. O contato entre nós aqueceu nosso sangue, não da forma explosiva que acontecera antes, mas aos poucos. Deixamos o calor tomar conta de nós sem nos incomodarmos, curtimos cada instante. Os carinhos tornaram-se mais gostosos, os beijos tinham outro sabor. Apesar de acontecer mais lentamente, a sensação foi bem mais intensa e duradoura, e dessa vez não houve sentimento de culpa. Aconteceu somente, e foi maravilhoso.

Depois, poucas palavras. Mais alguns mergulhos e ficamos ao sol. De vez em quando um carinho, um beijo. Estávamos felizes, satisfeitos.

- Continuamos namorados... sem quebrar a promessa.

- É... hoje foi muito bom. Não me senti culpada, me senti feliz.

 

Fomos até o ingazeiro. A sombra dele estava fresca, ideal para um descanso. Liza dormiu nos meus braços. Fiquei imaginando como isso era bom, e queria que durasse para toda vida. Fiquei observando Liza dormir, parecia tranqüila e feliz. Acabei adormecendo também.

Na volta para casa vimos meus pais e os avós de Liza chegando. Corremos até a casa para preparar-lhes um café. Ajudei a cortar bolo e queijo, e Liza fez o café e esquentou leite. À mesa, Pai e seu Chico conversavam baixinho. Todos nos cumprimentaram com sorrisos, mas sentimos alguma tensão no ar.

O sol já se punha quando acompanhei meus pais para casa. Caminhamos em silêncio, eu observava a preocupação em Pai e Mãe. Em casa, depois de um jantar rápido, fiz minha higiene noturna, e quando ia para a cama, Pai me chamou:

- Nico, venha cá. Preciso falar com você.

Fui preocupado. Será que tinha acontecido alguma coisa errada? Pai não parecia zangado, tinha mais um ar embaraçado, até meio envergonhado. Respirou fundo, e de uma só vez descarregou:

- Nico, nosso negócio em São Paulo deu certo. Já vendi o sítio para o Seu Chico e vamos nos mudar. Vamos aproveitar que um conhecido está indo de carro para São Paulo e vamos com ele. Amanhã. Depois Seu Chico manda nossas coisas por um caminhão. Tudo Bem? Amanhã cedo você se despede de Liza e dos avós dela enquanto sua mãe arruma suas coisas, e logo depois do almoço a gente vai embora.Tá certo?

Mãe percebeu meu desespero. Meu sangue sumiu e imediatamente as lágrimas começaram a cair pelo rosto.

- Pai! Não posso deixar Liza... eu gosto dela... – foi só o que consegui dizer, os soluços logo cortaram minha fala.

- Nico, eu sei que vocês se gostam, mas são ainda crianças. Você ainda nem fez quinze anos, Liza é mais nova. Essas coisas passam. Pode parecer o fim do mundo agora, mas logo se ajeita, tudo tem remédio. Não adianta fazer chororô, não resolve a situação nem melhora, é preciso pensar no futuro. Quando você for adulto, vai entender essas coisas, vai se lembrar disso. Até lá, tudo vai se ajeitar. Acredite em nós. Eu e sua mãe queremos seu bem, nós gostamos de você. Em São Paulo você vai estudar em uma boa escola, vai se formar, ter uma profissão e... bem, o futuro vai mostrar o que é melhor.

- Vem Nico. Vem se deitar e procure dormir. Amanhã vamos fazer uma longa viagem e você precisa estar descansado.

- Liza...

-Eu sei, filho, eu sei. Tudo vai acabar dando certo. Essas coisas se ajeitam com o tempo. Não pode desesperar por isso.

Fo uma noite terrível. Dormi mal, tive pesadelos: Liza se afogando na cacimba, Liza sangrando e gritando, Liza não conseguindo respirar... e em nenhuma situação eu conseguia chegar perto dela. Sempre acordava assustado.

Levantei bem cedo. Meus pais estavam à mesa, tomando café. Eu tinha olheiras, estava de mau humor. Tomei apenas um gole de café com leite e me preparei para sair.

- Filho, não é muito cedo para você ir à casa de Seu Chico? Não é melhor esperar mais um pouco? Pode ser que Liza nem tenha acordado ainda...

- Deixa ele. É uma coisa difícil. Deixa ele resolver. – intercedeu minha mãe.

 

Saí, e quase correndo cheguei à porteira de Seu Chico. Liza já me esperava, e pelo jeito, tivera a mesma noite que eu. Seus olhos estavam inchados e as faces vermelhas. Abraçamo-nos, e por um longo tempo só conseguimos chorar. Dona Nena nos interrompeu:

- Parem com isso. Não vai melhorar nada. Venham tomar um café, depois dêem uma volta por aí, aproveitem o pouco tempo. Desespero não vai resolver nada.

 

Entramos e tomamos café em silencio. Depois saímos em direção ao cafezal. Ele nunca me parecera tão bonito. Na época da floração ele cobria-se com um véu branco. Os caminhos ficavam forrados de flores, o verde das folhas quase desapareciam de tantas flores caídas. Sempre achei isso muito bonito. Mas agora as flores tinham acabado, e era o verde intenso das folhas que predominava, contrastando com o céu azul, límpido. Essa simplicidade de cores era até mais bonita que na época da floração. Sem perceber apertei mais a mão de Liza, e chegamos ao ingazeiro. Ali uma forragem verde atapetava o chão, como se esperando por nós. Havia ainda algumas flores tardias no ingazeiro, que eram visitadas por beija-flores e abelhas, e essa visão familiar me acalmou um pouco. A natureza parecia querer diminuir nosso sofrimento.

- E agora, Nico? O que vamos fazer?

- Não sei. Pai disse que tudo isso ia passar, mas eu sei que não vai. Não sei se vou conseguir fazer alguma coisa sem você. Tudo isso é muito ruim.

- Vô Chico me falou um monte de coisas. Que não era para desesperar, que o tempo ajustava tudo, que ia ser melhor para nós, que eu já estava ficando adulta e ia saber superar isso... mas a verdade é que me senti horrível – sorriu – fiz um escândalo. Coitada da Vó Nena, teve que ficar me ouvindo...

- É... eu também fiz um escândalo. Quase disse que não ia, que ia fugir com você, que você era minha namorada, minha futura mulher... a sorte é que desandei a soluçar e não consegui falar, senão tinha falado besteira.

- Chorou que nem criança? Eu também chorei. Fiz um berreiro. Sabe, acho que no fundo ainda somos crianças.

- É, não tem mesmo jeito. Depois do almoço vou embora e não sei por quanto tempo. Ontem estava tudo tão bom, e de repente essa droga de vida.

Ficamos calados. Depois de algum tempo fomos até o riacho. Ali era para nós um lugar mágico, o lugar de nossas melhores descobertas.

- Ontem foi um dia maravilhoso. Nunca vou esquecer.

 

Voltamos para casa de seu Chico. Almocei por lá. Logo depois do almoço, seu Chico me alertou:

- Nico, está na hora de você ir. Seus pais vão querer viajar daqui a pouco, já devem estar esperando.

Abracei Dona Nena, abracei seu Chico. Liza foi comigo até a porteira. Abraçamo-nos demoradamente e trocamos um beijo longo, agarrado, coisa que nunca tínhamos feito na presença de outras pessoas, quase escandaloso. Nem pensamos nisso. Foi um beijo amargo, salgado pelas lágrimas. Liza me deixou e correu para o colo de Dona Nena. Fui embora e olhei para trás uma última vez. Liza estava aninhada no colo da avó, e chorava desconsoladamente, como uma criança infeliz.

Comecei a correr. É só o que me lembro. Meu mundo apagou-se. Quando me dei conta, já estava num carro, por estradas desconhecidas, a caminho de São Paulo.”

 

- Acho que o que me trouxe de volta para o mundo foi aquela música que te falei. Na segunda parte ela dizia:

Meu cafezal em flor, quanta flor do cafezal

Meu cafezal em flor, quanta flor meu cafezal

Ai menina, meu amor, minha flor do cafezal

Ai menina, meu amor, branca flor do cafezal

Passa-se a noite vem o sol ardente bruto

Morre a flor e nasce o fruto no lugar de cada flor

Passa-se o tempo em que a vida é todo encanto

Morre o amor e nasce o pranto, fruto amargo de uma dor”

 

Permaneceram em silêncio por um longo tempo. Nico tentava sufocar a angústia de suas lembraças, e Liane observava. Compreendia a intensidade do relacionamento dos dois, e entendia a dificuldade de Nico de esquecer seu passado.

Mais tarde, Nico tomou coragem e comentou:

- Não consegui deixar de pensar em Liza todos esses anos. Lembro-me de nossos momentos felizes, e se tenho pesadelos com isso, é porque sinto falta dela. E enquanto sentir, vou ter pesadelos. Sou que nem aquele cara no Joelma. Estava dentro da tragédia, simplesmente fumando e esperando alguém salvá-lo. Foi o que fiz todos esses anos, simplesmente deixei o tempo passar, esperando alguém me salvar, me acovardei. Agora não sei mais se perdi Liza ou não, só sei que a deixei sofrer sozinha e não fiz nada. Pesadelos sçao só lembranças da minha covardia...

- O que são reais são suas boas lembranças, e é nisso que você precisa se apegar. Tente Nico, tente...

 

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