Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

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4. Amor inocente

 

4 – Amor Inocente

 

Na noite depois de assistir ao documentário do Joelma, Nico teve outro pesadelo. Dessa vez o cafezal de Seu Chico pegava fogo, e Liza estava no meio dele, gritava por ele. Nico ficava simplesmente observando e fumando cigarros. Podia ouvir o barulho do incêndio como um enorme exame de abelhas, os pássaros gritavam como as pessoas no Joelma, o riacho tinha secado, não havia água para apagar o fogo. Então começou a correr, correr, e o cafezal foi sendo tomado pela fumaça, cada vez mais branca, até que o ingazeiro em chamas tombou sobre ele.

 

Acordou num susto. Ainda estava escuro. Desceu à cozinha e preparou um suco de laranja bem doce. De volta ao quarto lembrou-se da brincadeira com Liza: depois de tomar o suco, trocavam beijinhos, para ver se tinham ficado com a boca doce ou azeda. Agarrou o travesseiro e ficou beijando-o.

- Doce, docinho! Doce, Docinho!

Ficou repetindo isso até adormecer. Acordou cedo ainda abraçado ao travesseiro. Era um sábado, não tinha aulas, e podia dormir até mais tarde se quisesse, mas preferiu levantar. Estava inquieto, e logo batia na porta da casa de Liane.

- Nico, tão cedo? Hoje é sábado, dia de dormir até mais tarde.

- Estou aqui por sua causa.

- Vai me pedir em casamento? Eu aceito, não precisava vir tão cedo.

- Engraçadinha... acha que depois de assistir um filme apavorante daqueles eu ia querer alguma coisa mais... – parou - Desculpe, eu ia falar besteira...

- Já sei. Uma coisa mais terrível. Casar comigo seria pior que um incêndio num prédio? Você já foi mais romântico que isso.

- Desculpa, falei sem pensar. Eu gosto muito de você, acho que casar com você seria muito bom, mas...

- Não precisa explicar. Eu sei. Você está preso ao passado. Sem saída.

- Acho que estou ficando maluco. Ainda bem que tenho você me aturando. Só queria te contar uma coisa...

Ela riu.

- Já sei. Liza...

- É... só mais uma coisa, é rapidinho.

- Está bem, mas é melhor entrar.

Entraram e se acomodaram no sofá. Liane deitou com a cabeça apoiada no colo de Nico e este automaticamente acariciou seus cabelos.

- Vai Nico, conta sua história. Gosto de ouvi-las.

- Sabe que Liza deitava-se assim comigo? Às vezes conversávamos tanto tempo desse jeito que minha perna adormecia. A primeira vez foi no cafezal...

- Fala dessa parte.

- Mas não é isso que eu queria contar.

- Mas conta isso primeiro, temos bastante tempo.

- Tá bom, mas não me deixa esquecer...

 

“Quase no final do ano descobrimos um caminho pelo cafezal. O velho Tião tinha acabado de nos deixar na beira da estrada, quando Liza chamou minha atenção:

- Olha, Nico, como o cafezal está bonito! Todo branco de flores.

- É mesmo. E ali tem uma estradinha! Vamos ver onde vai dar?

Era realmente uma vista bonita. A estradinha seguia cafezal adentro, e estava forrada de flores. Podia-se ver ao longe o telhado da casa de seu Chico.

- O caminho segue em direção à nossa casa. Vamos segui-lo? Acho que não dá para se perder. – Liza pegou minha mão e me puxou adiante.

Depois de algum tempo andando chegamos a um desvio que subia. Uma pequena ladeira levava a um ingazeiro solitário no meio do cafezal. Havia algumas pedras, como se fossem bancos naturais para descanso dos trabalhadores.  De lá dava para ver a casa de seu Chico e a estradinha que seguia com poucas curvas até perto da porteira. Ficamos sentados alguns minutos olhando o panorama e depois seguimos pela estradinha. Descobrimos que era um caminho mais rápido do que o que fazíamos, e este passou a ser nosso caminho habitual.

Nas férias de fim de ano passeamos várias vezes até o ingazeiro, que tornou-se nosso ponto de descanso, longe de todos, silencioso. Nas tardes mais pachorrentas deitávamos à sua sombra, para um cochilo, sempre pertinho um do outro, às vezes meio enroscados. De começo era para espantar o medo de estar num lugar solitário, um apoiava o outro, mas depois que perdemos o medo, continuamos assim porque era mais gostoso. O jeito que mais gostávamos era quando eu me sentava apoiado no ingazeiro e Liza deitava-se com a cabeça apoiada no meu colo. Eu ficava acariciando seus cabelos até ela dormir, e muitas vezes minha perna ficava formigando, mas valia a pena.”

 

- Liza deitava-se desse mesmo jeito que você está agora...

- Então me faz dormir...

- Depois. Hoje tive um pesadelo, foi por sua culpa. Dessa vez o cafezal estava pegando fogo e eu não tentava salvar Liza, simplesmente ficava observando e fumando, até que comecei a correr e o ingazeiro caiu sobre mim. Acordei assustado e fui tomar um suco de laranja. Depois agarrei o travesseiro e fique beijando e repetindo “doce, docinho” até dormir e não tive mais pesadelos.

- Que maluquice é essa agora? – Liane riu.

- Era só uma brincadeirinha entre nós.

 

“Liza estava no terceiro ano e eu no quarto. Logo no começo do ano a escola passou a servir suco de laranja no recreio. Foram tantos dias que já estávamos enjoando. Tinha dias que o suco era terrivelmente azedo, e num desses dias Liza estava aborrecida.

- Eca! Esse suco está horrível. Vai deixar minha boca azeda!

- Será? Acho que minha língua também vai azedar. Está até ardendo!

- Deixa eu ver.

Então Liza entreabriu os lábios e tocou com eles de leve na minha língua.

- Doce. Não ficou azeda.

Eu fiz a mesma coisa. Encostei meus lábios nos dela e disse:

- Docinho. Seus lábios estão docinhos.

Caímos na risada. As crianças perto de nós ficaram nos olhando admiradas. A merendeira nos chamou a um canto e nos deu a maior bronca. Falou que se não parássemos com essa história de beijar, iria chamar nossos pais, e mais um monte de descomposturas. Ficamos extremamente envergonhados.

Na volta para casa perguntei à Liza:

- Aquilo foi beijo? Beijo de namorado?

- Parece que foi. A merendeira ficou vermelha, não sei se foi de raiva ou de vergonha.

Rimos a valer.

- Melhor então a gente tomar cuidado. Não quero encrenca com teu avô.

- Tá bom, mas um dia eu quero saber como é com a limonada.

Passou a ser nossa brincadeira secreta. Experimentamos com a limonada, refrigerante, leite. No entanto o resultado era sempre o mesmo:

- Doce.

- Docinho.

Na verdade o que era gostoso era o beijinho...”

 

- Essa é a história do doce, docinho, e foi do que me lembrei ontem. Só que o travesseiro não tinha o gosto dos lábios dela. Ainda assim consegui dormir depois do terror que você me fez assistir.

Liane caiu na gargalhada.

- Acho que vocês não prestavam desde criança. Deviam ter levado uma surra.

- Ah, não zoa. Eu gosto de lembrar essas coisas, mas se você ficar toda hora rindo da minha cara não te conto mais nada.

- Ei, não fique zangado. É só uma coisa engraçada. Eu bem que queria ter feito isso quando criança. Você é um cara de sorte, teve uma infância feliz. Agora me faz dormir...

Nico acomodou Liane em seu colo e ficou acariciando de leve seus cabelos. Pouco tempo depois ela estava dormindo. Ele fechou os olhos, e também adormeceu. Dessa vez sonhou com o cafezal em flor.

- Acho que me senti que nem aquele cara do décimo oitavo andar do Joelma. – Disse Nico depois que acordaram. – Simplesmente observando, esperando acontecer alguma coisa, e fumando. Enquanto isso Liza sofrendo, como as pessoas dentro do prédio. Foi mais ou menos assim na nossa despedida: diante da tragédia, esperamos, não reagimos. Eu segui adiante, como o cara do Joelma, depois que foi salvo, e deixei Liza no fogo, como um covarde...

- Para com isso, Nico. Vocês não podiam fazer nada!

 

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