Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

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10. A decisão de Nico

 

10 -  A decisão de Nico

 

Depois que deixou Liane, Nico foi para casa. Era uma sexta feira, e Nico foi deitar cedo. Logo que adormeceu, seus pesadelos retornaram, repetiram-se muitas vezes. Ele contorcia-se na cama mas não conseguia acordar. Já era manhã de sábado quando finalmente acordou assustado. Levantou-se rapidamente e tomou um banho demorado.

Ao descer, seu pai já estava na cozinha tomando café.

- Pai, me empresta o Jipe?

- O que você vai fazer com o Jipe? Não prefere o carro?

- Não, pai. Quero dar um passeio até a represa e a estrada é muito ruim, é melhor o jipe.

- Está bem, mas tome cuidado.

- Obrigado, pai. – e foi para casa de Liane.

 

 

- Nossa, Nico. Precisava me acordar tão cedo? Hoje é sábado, dia de levantar mais tarde.

- Eu precisava falar com você em um lugar sossegado. Achei que a represa Guarapiranga fosse um bom lugar. Aquelas águas me acalmam.

 

A estrada realmente estava péssima. Os melhores acessos à represa sempre levavam aos piores lugares. Nico preferia os acessos de terra, que pouca gente usava, para atingir os lugares mais bonitos. Tinha uma certa fixação por belas paisagens. Depois de quase uma hora sacolejando no jipe, finalmente chegaram a um lugar sossegado.

- Tomei uma decisão e queria sua opinião.

- Minha? Porque não fala com seu pai ou sua mãe? Eu não sou boa para decisões, só para ouvir histórias.

- Não posso falar com eles agora. Com certeza iriam inventar alguma coisa para me prender aqui. Quero voltar à fazenda. Quero ver Liza, saber como ela está. E isso eles não vão deixar, nunca deixaram.

- Isso é maluquice! Você pode se decepcionar. Acha que depois de tanto tempo vai estar tudo como antes? Cada um seguiu sua vida. Pode ser que Liza até já esteja casada, tenha te esquecido. Vai querer remoer feridas? De jeito nenhum. Você não pode.

- Pode ser, pode ser... Ah, Liane, você é igualzinha a meus pais. E eu achando que era minha amiga, minha amiga que me compreendia. Já pensou que pode também não ser? Liane, só preciso ter certeza do que aconteceu, nada mais. Estou ficando maluco com meus pesadelos, mas já te disse que sei porque: eu abandonei Liza, não consegui ficar perto dela em nenhuma ocasião. Nem tentei, por isso os pesadelos me atormentam, dizem uma única coisa, eu a deixei e saí correndo para nada.

- Você está maluco mesmo! Apenas se mudou para outro estado e nada mais. Duas crianças que deixaram de brincar juntas, só isso. Você deveria seguir sua vida, como ela certamente fez. Para de viver de ilusão. Seus pais tinham razão. A vida continua, não adianta se apegar a essas coisas, é preciso olhar adiante. Talvez isso tenha libertado Liza, e se não conseguiu te libertar dessa ilusão de criança, é porque você não quis. Pensa bem no que quer fazer.

Nico foi até a beira da represa. Depois de jogar muitas pedras na água, voltou cabisbaixo.

- Acho que você tem razão. Melhor esquecer. Mais adiante tem uma lanchonete. Podemos comer alguma coisa e voltar para casa. Me abraça, diz que sou idiota, só não me deixa sozinho.

- Vamos.

Ficaram por lá até o entardecer.

- Zangada comigo?

- Não. Porque deveria? Te conheço a bastante tempo, sei como você é.

- Passou. Vou embora, senão Pai vai ficar preocupado. Ele morre de ciúmes do Jipe.

Liane acompanhou-o até o Jipe.

- Nico, lá na represa eu estava errada. Me desculpe. Eu acho que você deveria tirar essa história a limpo. Mas tenha cuidado para não se machucar.

- Obrigado, Liane.

- Quando você pretende ir?

- Daqui a uns três meses, começo de dezembro...

- Não esqueça de falar com seus pais.

 

No quarto Nico refletiu sobre o que Liane dissera. Precisava enfrentar a resistência do pai o quanto antes. Não que ele fosse impedir, mas acostumara-se a estar sempre de acordo com seus pais, não gostava de discordâncias inúteis, e até agora, o pai sempre lhe aconselhara bem, exceto talvez com relação à Liza.

Desceu e encontrou os pais assistindo a um daqueles horríveis programas de auditório televisados pela Rede Tupi. Aguardou pacientemente o intervalo dos comerciais. Apesar do avanço dos televisores, transmitindo programas a cores, Nico não ligava muito para eles. Finalmente apareceu a vinheta da Tupi, indicando o início dos comerciais.

- Pai, precisava de uma opinião sua...

- Sim?

- Eu conversei um bocado com Liane, até tivemos algumas divergências a respeito de uma decisão que tomei, mas no fim ela concordou, mas achou que eu devia falar com vocês.

- É? É coisa entre vocês? Algo errado?

- Não Pai. Deixe-me explicar... Sei que o senhor me pediu paciência, que deixasse o tempo ajeitar as coisas, mas eu ainda não consegui esquecer... preciso resolver aquilo... Liza...

- Hum. E o que quer fazer?

- No fim de ano, depois das aulas, eu queria ir até lá, visitar a fazenda, ver Liza.

- Não pode desistir dessa idéia?

- Não, pai. Me desculpe, dessa vez não.

- Tá certo, então. Não tem problema. Também acho que você já esperou tempo demais. Está preparado para qualquer coisa? Sabe, foram muitos anos. Liza pode ter concertado a vida, ter esquecido você. Está preparado?

- Já pensei nisso, pai. Só quero ver como tudo está. Se ela estiver bem, tudo bem, resolvo minha vida. Só preciso ter certeza.

- Você pode faltar às aulas no começo da semana que vem? Digamos, segunda e terça?

- Como?... Acho que sim. Sim, posso, não terei muitas aulas na semana que vem...

- Bem, então não vai precisar esperar até o fim do ano. No próximo sábado terei que ir até a fazenda. Vou de ônibus, partirei à noite para chegar lá pela manhã. Mandarei comprar uma passagem para você. Iremos juntos. Preciso permanecer lá um dia para assinar documentos. Viajaremos de volta na segunda à noite. Tiraremos isso a limpo.

- Obrigado, pai.

- Confio em você. Vá com calma...

Nico subiu correndo ao quarto e jogou-se na cama, afundando a cabeça no travesseiro. Não acreditava que estava tão perto de voltar. Nessa noite teve sonhos estranhos. Liza no cafezal com uma porção de crianças: “São meus filhos”. Acordou de repente. Dormiu de novo. Liza vestida de freira, mandando-o embora. Depois Liza com um namorado, rindo-se dele. Acordou de novo.

- Que droga. Por que tudo tem que ser tão difícil?

 

No dia seguinte encontrou-se com Liane na saída da faculdade.

- Eu vou semana que vem. Pai tem negócios a resolver e concordou em me levar. Sonhei com Liza, sonhos piores que pesadelos...

- Ah,é?

- Liza casada, Liza freira, Liza com um namorado...

- Espero que volte inteiro. – riu Liane.

- Liane, você vai me odiar? Quero dizer, se eu não superar isso você vai me odiar? E se eu voltar quebrado, você me conserta? Não vai me mandar passear?

- Claro que não, Nico. Eu um dia já fui apaixonada por você, mas você é um cara especial, caí na realidade. Agora sou apenas sua amiga, sua melhor amiga, como você diz, quase namorada, e nunca vou odiar você. Quero mais é que você se dê bem, com ou sem Liza.

- Obrigado, Liane. Isso me ajuda muito.

 

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