Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

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1. Nicolas e Elizabeth

 

Numa manhã de março de 1963, o velho Tião estava com sua charrete, esperando na beira de um cafezal as duas crianças que deveria levar e trazer da escola. Estava feliz, pois iria ganhar um dinheiro extra, com pouco trabalho a mais. Estava acostumado a fazer o trajeto das roças à cidade, levando a produção dos lavradores para o mercado.

Seu Chico precisava de alguém para levar sua neta, pois era muito longe para uma criança tão pequena ir a pé. Elizabeth, a pequena Liza, ia iniciar seu primeiro ano na escola. Seu Atílio, um comerciante de café, morador de um sítio vizinho à fazenda de Seu Chico, também mandaria seu filho Nicolas, o pequeno Nico, pela charrete. O velho Tião gostava muito de Nico, um menininho alegre e sorridente, mas que se acanhava com facilidade, ficando com as bochechas rosadas por qualquer coisa. No ano anterior, várias vezes dera carona a Nico, ora indo, ora voltando da escola, caminho que ele fazia feito costumeiramente a pé.

 

As duas crianças surgiram na estrada que beirava o cafezal no horário combinado.

- Olá, Seu Tião. Vai levando alguma coisa hoje?

- Olá, Nico. Só uma porção de abóboras. É uma encomenda. O pessoal da igreja vai fazer doce para uma festa. Olá, Liza, pronta para a escola?

- Ah, seu Tião. Tô com um friozinho na barriga. Acho que estou com um pouco de medo.

- Logo logo acostuma...

 

A cidade era pequena e tranqüila. Apenas uma escola dava atendimento a todas as crianças, desde o primeiro ano primário até o terceiro colegial. Depois disso, quem quisesse continuar os estudos precisava mudar-se para uma cidade maior, todas muito distantes para ir e vir todos os dias.

Nicolas, filho do comerciante Atílio Salvia e de Dona Alva, tinha nessa época oito anos, estava no segundo ano primário e morava no sítio dos pais. O sítio não produzia muita coisa, somente frutas e verduras para o consumo caseiro. A verdadeira fonte de renda da família era o comércio de café que seu Atílio praticava nas épocas de colheita, correndo as plantações, recolhendo as sacas e negociando nos centros distribuidores. Nesses períodos saía com seu caminhão mundo afora e passava longas temporadas negociando.

Elizabeth, um ano mais nova, era órfã, havia perdido os pais em um acidente de ônibus, quando tinha pouco mais de dois anos. Ela sobrevivera ao acidente e fora mandada à fazenda dos avós maternos, Seu Chico Cohen e Dona Nena, que a haviam criado desde então. Era uma menininha magricela e muito esperta, que gostava de conversar e sorria com facilidade. A fazenda tinha um grande cafezal, e era necessário caminhar um longo trecho de estrada para se chegar à porteira da casa da fazenda. Menos de duzentos metros depois ficava a casa do sítio de Seu Atílio.

Nico encontrava-se com Liza na porteira e vinham juntos até a charrete. Na volta Nico a deixava ali, onde normalmente ficava até ela entrar em casa, e depois seguia adiante.

O velho Tião observava a chegada e a ida deles diariamente com um sorriso nos lábios. Estavam sempre de mãos dadas e nunca pareciam aborrecer-se um com o outro. Tinham o costume de se sentarem juntinhos no banco da charrete, com Liza sempre na parte interna.

- Quem começa assim agarradinho não se larga mais. – confabulava o velho Tião consigo mesmo.

Foi uma rotina que durou por sete anos...

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