O vasinho azul

This is the first short story of the book I intend to publish about my youth years in Brazil. They were wonderful, difficult, amazing times!

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1. O vasinho azul

O casamento acabara ali. Ela havia perguntado a ele:

- Em que lugar eu estou na sua vida?

Ele foi sincero:

- Em segundo. Em primeiro está o partido.

O que pensar depois dessa confissão? Era apenas a confirmação do que ambos já sabiam. Haviam se casado muito novos e agora estavam mudados... Não sentiam mais o mesmo amor.

Sem saber o que dizer mais, eles apenas ficaram sentados na cama, juntos, doídos. As questões práticas, que ela sempre gostava de considerar, seriam conversadas mais adiante: quem sairia, o que fazer com as coisas que tinham comprado juntos – móveis, livros, discos, o telefone. Não era tanta coisa. Afinal, em três anos suados, com pouca grana, não haviam juntado muito.

– Você acha que eu preciso ir dormir em outro lugar hoje? – falou com um jeito de menino que era todo seu.

Mas isso não seria preciso. Eles não se odiavam, podiam resolver tudo com calma. Talvez assim a dor fosse menor.

Ele quis voltar no assunto:

– Eu falei o partido, mas você sabe que não é simples assim. Agora eu preciso me dedicar a isso, existe essa chance de fazermos um partido de trabalhadores, vamos fazer dar certo. Não quer dizer que eu não goste mais de você...

– Eu sei – interrompeu ela, sem querer retomar o assunto.

E ela sabia mesmo. Achava importante o trabalho dele, a dedicação. Mas não sentia mais amor, essa era a verdade. E não conseguiria viver sem isso, esperando que o amor voltasse quando a política do país permitisse.

Eles haviam passado por algumas situações meio assustadoras nos últimos meses: o telefone que fazia um barulho estranho cada vez que atendiam, o zelador que remexia a correspondência e parecia ter sempre uma pergunta a fazer sobre eles. E não era paranóia. Amigos estavam vivendo o mesmo problema. Eram os tempos... Era o preço que ela não estava mais a fim de pagar.

Naquela noite dormiram abraçados e tristes. Como dois irmãos que perderam um ente querido.

O tempo passou depressa desde a conversa sobre a separação. Ela havia decidido sair. Sentia que era mais sua culpa do que dele. Não queria mais ficar no apartamento. Precisava de mudanças que lhe dessem uma nova motivação. Sentia que sua história estava invertida: o casamento viera primeiro, e agora ia morar em uma república. Mas era nova ainda, fazia sentido recomeçar dessa maneira.

No dia da mudança ele não estava lá. Não queria estar.

Ela subiu sozinha, esperando o rapaz do carreto ir estacionar. Já havia encaixotado tudo que era seu, então seria rápido. Em pouco mais de meia hora já tinham colocado tudo na Kombi. Não quis a cama, nem o som, nem as coisas de cozinha. Ficou com pena de levar os discos, por isso escolheu apenas os que sabia que ele não ia mais ouvir.

Sua calma a surpreendia. Sabia que agora podia tomar as rédeas de sua vida, mesmo tendo contado com ele para sair da casa dos pais.

Pegou o vasinho azul que haviam comprado em Ouro Preto, queria levar como lembrança. Carregava sua bolsa e uma sacola, onde tinha colocado algumas coisas de última hora.

Ao virar a chave para fechar a porta e colocar um ponto final naquela história o vasinho escorregou de sua mão, e se quebrou a seus pés, no corredor, partido em muitos pedaços. Não teve forças para limpar a sujeira. Caiu num choro guardado há dias, e foi assim que desceu os degraus até a portaria, dessa vez sem se importar com o que iria pensar o zelador.

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